sábado, 23 de março de 2013

Se eu fechar os olhos agora.


Se eu fechar os olhos agora

Se eu fechar os olhos agora, Edney Silvestre, Romance, 2009, Editora Record.

"Desde aquela época, venho buscando explicações para o sucesso do livro", conta Silvestre. "Afinal, não se trata de um relato histórico, nem policial, ou mesmo de um romance de formação, mas contém ingredientes de todos esses gêneros."















O LIVRO

“Nada neste país é o que parece.” –Forte, não?

                Já devo começar parabenizando o autor e o romance, visto que em 2010, ambos ganharam o prêmio jabuti de literatura na categoria romance. –Só escolho bons livros, né? Sem catarse, sem post. – E olha que engraçado, ele ganhou do nosso digníssimo “Leite Derramado, sim o do primeiro post!” Na verdade, concorriam naquela mesma categoria, e o Jornalista Edney Silvestre ganhou a melhor sobre o Chico. E não para por aí os prêmios dessa maravilhosa obra, em 2009, Se eu fechar os olhos agora, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura! Mas vamos ao que nos importa a sinopse comentada:
                Se eu fechar os olhos agora, começa com esta exata frase. O que me deixou de celho franzido, o título, a princípio, é tão sucinto e forte que me desorientou, confesso. E ele vai fazendo cada vez mais sentido, ao decorrer da estória, sobretudo, ao final dela. A primeira cena do livro, acontecida em um abril, no início da tortuosa década de sessenta, é estrelada por dois garotos de doze anos que fugiam da escola e... Um corpo. Encontram um corpo. Uma linda mulher, loira, cruelmente assassinada próximo ao lado onde os garotos se banhavam divertindo-se e discutindo sobre a ida do homem à Lua e coisas que estavam em voga na época – Nisso, o livro também está de parabéns. Não sei se pelo autor ser um jornalista, mas o conteúdo histórico que fica o tempo todo como pano de fundo é magnífico – Os dois garotos, que a princípio são suspeitos, por terem encontrado o corpo primeiro, sofrendo até sérias ameaças da polícia, veem outro homem ser dito culpado. O marido da moça, um dentista. Sob o argumento de ter agido por ciúme. Tudo isso se afigura estranho e demasiado repentino. Os rapazes decidem investigar, e sem qualquer planejamento prévio, acabam juntando-se a um velho de um asilo, velho este que tem um passado surpreendente que envolve a ditadura militar, Getúlio Vargas.
                Os diálogos e os pensamentos, o próprio modo simples de a história ir seguindo são um show de talento e leveza. Sim, há bastante leveza nas descrições. Nas lembranças, e na amizade cúmplice dos garotos, que são tão diferentes entre si. Os diálogos são simples ao ponto de nos deixar dar a ênfase, mas não fugindo do que o autor quer que pensemos. A crítica social; as mazelas políticas; a forma como o poder age; e a sujeira imunda que se esconde debaixo dos tapetes e é esquecida nos dá um sabor de realidade brasileira que não desce bem pela boca. Mas nos choca de modo que não há jeito de admirar pouco, a obra. Ama-se na mesma forma que se odeia a hipocrisia do povo, as mentiras, falsas acusações, perversões sexuais e a impunidade, o racismo e as ameaças, jogos de poder que havia – e há, diga-se de passagem – nas cidades brasileiras, que fique claro, não só no interior. Não só na década de sessenta.
                É uma grande discrepância que há, dentre a brutalidade dos fatos, a perspicácia das conclusões que existem na investigação, e a inocência do crescimento dos meninos. O autor transita por esses mundos tão comumente quanto um jornalista fala sobre festa de natal e logo depois sobre soterramento. A precisão do período histórico nos mostra a meticulosidade investigativa que houve previamente, antes do romance ser escrito, - seis anos, para a conclusão da obra-... E fica difícil, saber se neste volume é a arte quem imita a vida, ou se é a vida quem está imitando a arte. É tão real que, que pode haver por aí mais Ritas, mais Eduardos e Paulos. Mais Ubiratans. E há. O sabemos no profundo de nós... Moças assassinadas e ninguém se importando, vítimas e ao mesmo modo, vilões da política, mártires e garotos curiosos. Ao final das trezentas e quatro páginas, dentre idas e vindas do tempo, o desfecho é tão tristemente real quanto todo o romance em si.
Um livro emocionante, que merece estar aqui com a minha singela recomendação! Digo até que pretendo ler outros livros do autor, assim que a biblioteca da escola os disponibilizar.  

O AUTOR



                Fui sincera na outra postagem como o serei nesta. Eu não conheço bem o trabalho do autor, que além de escritor, ótimo romancista, é também um jornalista reconhecido e admirado. Edney Silvestre Entre suas coberturas marcantes estão os atentados às torres do World Trade Center, quando foi o primeiro jornalista brasileiro a chegar ao local dos ataques; uma série de reportagens no Iraque; a passagem de furacões na Flórida e na América Central.  Está baseado no Rio, onde faz reportagens para o Jornal Nacional, o Bom Dia Brasil e o Jornal da Globo. Tem uma coluna semanal no RJTV e apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na Globonews. Publicou os livros Dias de cachorro louco e Outros tempos, ambos de crônicas, pela Record, e Contestadores, pela Francis. Está incluído nas coletâneas Conversations with John Updike (University Press of Mississipi); As grandes entrevistas de O Globo, Milênio e O livro das grandes reportagens (Globo). Se eu fechar os olhos agora terá edições francesa e portuguesa, respectivamente pelas editoras Belfond e Planeta. Então, vê-se que não estamos lidando com pouca coisa por aqui, eis mais um gigante que temos o prazer de receber em nossa casa, e ler, página por página.

“Sempre achei que escritores mentiam quando diziam que não tinham controle sobre seus personagens. ‘Não é possível!’, eu pensava, mas é assim mesmo, porque eu descobri que não se tem realmente controle”. –Edney Silvestre... Pois é.

Fontes:. G1.globo.com
Record.com
Vermelho.org.com

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