sexta-feira, 22 de março de 2013

Leite Derramado



Leite Derramado, Chico Buarque.
2009, Schwarcz L.T.D.A, Companhia das letras, Leite Derramado, Chico Buarque.

                “...Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é que certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.” – Forte, não?











O LIVRO
“Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.” Leyla Perrone-Moisés, site do autor.
                Bom, começo afirmando que não haveria no mundo – mesmo que se caçasse em todas as galáxias superiores e outros lugares igualmente inusitados – um título tão propício à trama quanto: “Leite Derramado”, pela película meio invisível, do personagem com a própria vida. A estória se passa com um homem de classe elevada, de antiga linhagem, que sofre uma decadência de seu nome e estima conforme as décadas escorrem por seu monólogo. Um homem de idade avançada, que passa por uma doença num hospital. Falando para todos. E para ninguém. E para si mesmo, ao que nos parece. Ele não tem tento na língua, comenta ao mesmo tempo sobre histórias antigas da própria vida, como da televisão que o está atormentando pelo volume exacerbado, ou como é maltratado no recinto hospitalar. Memórias falhas, bonitas ou feias, tristes ou alegres, conta com a mesma entonação desvairadamente sincera e que nos toca – O personagem é absolutamente real, palpável – Embora muitas vezes veja-se que ele devaneia. Põe-se a ver mortos, descrever histórias como se lá estivesse, séculos atrás, e falar de sua linhagem, se perdendo dentre as próprias conclusões. E mais dias, e mais enfermeiras vêm e vão, e exames, histórias novas ou repetidas, sempre com aquele quê de naturalidade. Muitas peculiaridades nos conquistam no decorrer das duzentas páginas, como a visita da filha às vezes, que sempre nos é uma surpresa, pois raramente ele diz com quem está falando, podendo até confundir-se. Normalmente penso que é ignorado.
Um espetáculo totalmente a parte, é a presença de Matilde, sua ex-mulher, em quase todos os capítulos – nem que seja numa frase -. Passamos a também gostar dela, e ir tecendo na mente a história que se desenrolou ao ponto em que está: os dois separados, mesmo com tanta vontade partindo dele e emanando por seu discurso, talvez ele mesmo nem percebendo a profundidade que está contida nisso. Ao fim do livro, todos sabemos de cor e salteado como o Lalinho conheceu a moça, sua descrição de corpo, e seus gostos muitas vezes espalhafatosos e pueris, que veio a se tornar o núcleo principal de sua vida e pensamentos.
           Além de uma crítica social ali desmistificada de várias formas, através do próprio personagem principal, ou os que o rodeiam, também há muita história, muito conteúdo histórico brasileiro. As entrelinhas também compõem a obra de forma singular, descobrimos do próprio Eulálio coisas que ele não nos diz de boa vontade, ou até, não sabe. Não parou para pensar. Nos deixa descobrir, mas não nos diz claramente. Há humor, também, e um final sem fim. Um livro muito mais do que recomendável para primeiro post!

O AUTOR


"Vez por outra Deus força a mão e cria um talento único.
Quando a este talento se unem a inteligência e a sensibilidade, mesclando o artista ao intelectual, a coragem ao humor e a cultura aos olhos verdes, 'aí, então, é preciso terr cuidado,' como diria Vinícius, porque o efeito é quase insuportável. Por isso é que já tem criança dizendo: 'Mamãe, quando eu crescer, quero ser Chico Buarque'."
Jô Soares, humorista, setembro de 1998.”
               






                 





                 Devo admitir que essa é a primeira obra que tenho conhecimento deste maravilhoso autor nacional, mas foi como Jorge Amado, a gente lê e tem certeza de que quer aquilo pra alma! Foi uma indicação de uma professora, obviamente – ou não – uma professora de português, que dizia ser impossível não amar o Chico, pois bem, vos digo a frase dela com a mesma entonação, e também não estamos aqui de brincadeira, não é? Só indico bons livros. E bons autores, grandes artistas do mundo das palavras.
                Chico não é só autor de livros, é dramaturgo e músico, e mil e uma outras coisas que a arte que lhe vive perto permite que seja. Como autor, teve uma série de elogios por parte da crítica em torno de toda a sua obra literária, com as publicações: Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009). Como músico, Fez parceria com compositores e interpretes de grande destaque, entre eles, Vinícius de Morais, Tom Jobim, Toquinho, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo e Francis Hime.
      Francisco Buarque de Holanda, nasceu no Rio de janeiro, é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. E é um gigante da cultura brasileira que todos deveriam conhecer em algum momento da vida.

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