Leite Derramado,
Chico Buarque.
2009, Schwarcz L.T.D.A, Companhia das letras, Leite
Derramado, Chico Buarque.
“...Mas
se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência
senil, é que certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.”
– Forte, não?
O LIVRO
“Uma saga familiar
caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a
história do Brasil dos últimos dois séculos.” Leyla Perrone-Moisés, site do
autor.
Bom,
começo afirmando que não haveria no mundo – mesmo que se caçasse em todas as
galáxias superiores e outros lugares igualmente inusitados – um título tão
propício à trama quanto: “Leite Derramado”, pela película meio invisível, do
personagem com a própria vida. A estória se passa com um homem de classe
elevada, de antiga linhagem, que sofre uma decadência de seu nome e estima
conforme as décadas escorrem por seu monólogo. Um homem de idade avançada, que
passa por uma doença num hospital. Falando para todos. E para ninguém. E para
si mesmo, ao que nos parece. Ele não tem tento na língua, comenta ao mesmo
tempo sobre histórias antigas da própria vida, como da televisão que o está atormentando
pelo volume exacerbado, ou como é maltratado no recinto hospitalar. Memórias
falhas, bonitas ou feias, tristes ou alegres, conta com a mesma entonação
desvairadamente sincera e que nos toca – O personagem é absolutamente real,
palpável – Embora muitas vezes veja-se que ele devaneia. Põe-se a ver mortos,
descrever histórias como se lá estivesse, séculos atrás, e falar de sua
linhagem, se perdendo dentre as próprias conclusões. E mais dias, e mais enfermeiras
vêm e vão, e exames, histórias novas ou repetidas, sempre com aquele quê de
naturalidade. Muitas peculiaridades nos conquistam no decorrer das duzentas
páginas, como a visita da filha às vezes, que sempre nos é uma surpresa, pois
raramente ele diz com quem está falando, podendo até confundir-se. Normalmente
penso que é ignorado.
Um espetáculo totalmente a parte,
é a presença de Matilde, sua ex-mulher, em quase todos os capítulos – nem que
seja numa frase -. Passamos a também gostar dela, e ir tecendo na mente a
história que se desenrolou ao ponto em que está: os dois separados, mesmo com
tanta vontade partindo dele e emanando por seu discurso, talvez ele mesmo nem
percebendo a profundidade que está contida nisso. Ao fim do livro, todos
sabemos de cor e salteado como o Lalinho conheceu a moça, sua descrição de
corpo, e seus gostos muitas vezes espalhafatosos e pueris, que veio a se tornar
o núcleo principal de sua vida e pensamentos.
Além de
uma crítica social ali desmistificada de várias formas, através do próprio
personagem principal, ou os que o rodeiam, também há muita história, muito
conteúdo histórico brasileiro. As entrelinhas também compõem a obra de forma
singular, descobrimos do próprio Eulálio coisas que ele não nos diz de boa
vontade, ou até, não sabe. Não parou para pensar. Nos deixa descobrir, mas não
nos diz claramente. Há humor, também, e um final sem fim. Um livro muito mais
do que recomendável para primeiro post!
O AUTOR
"Vez por outra
Deus força a mão e cria um talento único.
Quando a este talento
se unem a inteligência e a sensibilidade, mesclando o artista ao intelectual, a
coragem ao humor e a cultura aos olhos verdes, 'aí, então, é preciso terr
cuidado,' como diria Vinícius, porque o efeito é quase insuportável. Por isso é
que já tem criança dizendo: 'Mamãe, quando eu crescer, quero ser Chico
Buarque'."
Jô Soares, humorista,
setembro de 1998.”
Devo admitir que essa é a primeira obra que tenho conhecimento deste maravilhoso autor nacional, mas foi como Jorge Amado, a gente lê e tem certeza de que quer aquilo pra alma! Foi uma indicação de uma professora, obviamente – ou não – uma professora de português, que dizia ser impossível não amar o Chico, pois bem, vos digo a frase dela com a mesma entonação, e também não estamos aqui de brincadeira, não é? Só indico bons livros. E bons autores, grandes artistas do mundo das palavras.
Chico
não é só autor de livros, é dramaturgo e músico, e mil e uma outras coisas que
a arte que lhe vive perto permite que seja. Como autor, teve uma série de
elogios por parte da crítica em torno de toda a sua obra literária, com as
publicações: Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite
Derramado (2009). Como músico, Fez parceria com compositores e interpretes de
grande destaque, entre eles, Vinícius de Morais, Tom Jobim, Toquinho, Milton
Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo e Francis Hime.
Francisco Buarque de Holanda,
nasceu no Rio de janeiro, é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da
pianista Maria Amélia Cesário Alvim. E é um gigante da cultura brasileira que
todos deveriam conhecer em algum momento da vida.


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