domingo, 31 de março de 2013

Mãos de cavalo.


MÃOS DE CAVALO


Mãos de cavalo, Daniel Galera.  2006, A Página.
“Dia desses, deitada na cama enquanto ele fazia abdominais no chão do quarto, ela interrompeu a leitura de um romance e disse: “Minha vida é como uma dança das cadeiras, só que ao contrário. Cada vez que para a música botam mais cadeiras.” Ele poderia tentar botar cadeiras, se estivessem faltando. Mas como se retiram cadeiras da vida de uma pessoa?” –Reflexivo, não?  Em dada parte do livro, eu li essa passagem no texto e imediatamente parei para pensar a respeito. Logo em seguida, fui tomada por uma vontade doida de anotar isso em algum lugar. Faz total sentido, não só no contexto da história... E depois, ao acabar o romance, Galera explica: “O Romance que a Adri está lendo na cama ao fazer o comentário sobre a “Dança das cadeiras ao contrário” é Terrorista do milênio, de J. G. Balard. A expressão foi descaradamente tirada do livro dele, em tradução de Celso Nogueira.”






O LIVRO

            Mãos de cavalo estranhei pelo título, quer dizer, que tipo de comparação seria esta?
Devemos começar, também, parabenizando o autor e o romance por serem incluídos na lista de leituras do vestibular da UFG por três anos consecutivos!- Mais uma das obras indicadas, com reconhecimento! O que eu disse sobre catarse não foi brincadeira. --  
O livro tem um timing interessante, pois ele não segue a ordem cronológica corretamente. Começamos com uma criança, um guri de Porto Alegre, com dez anos de idade, que se estrepa num tombo de bicicleta na rua. E então, passamos a um cirurgião plástico jovem, com uma mulher e uma filha pequena. Alpinista nas horas vagas. Que planejava viajar com um amigo até a Bolívia, para escalar uma montanha que antes ninguém escalara, esta, que está bem próxima a um vulcão inativo. E então vamos a um adolescente, e um adulto, e um adolescente outra vez... Vamos compreendendo o modo de ver o mundo de Hermano, ou Mãos de Cavalo, ou qualquer outra alcunha a qual seja utilizada para se tratar do protagonista. Seu fascínio pela dor, e ao mesmo modo, suas primeiras experiências, uma grande tragédia, e um casamento que não fora planejado e agora corria mais automático do que sentido, as histórias de heróis dos filmes, e dos quadrinhos... Tudo isso contribui para a trama de algum modo, clara ou obscuramente.
Ao decorrer dos capítulos vemos também a drástica mudança de atitude do personagem principal, causada por coisas enraigadas em sua adolescência que nunca foram esquecidas. O livro é leve e pequeno, não me referindo apenas as cento e oitenta e oito páginas, como ao modo mais coloquial de escrever, sem deixar de ter um bom vocabulário a se considerar. O que deixa o livro rápido de ler, uma característica de Galera. Muito embora esteja escrito em terceira pessoa, a alma dos personagens é nítida e interessante, assim como os apelidos dos guris, e a festa de quinze da Isabela, ou a competição de Downhill dos garotos arriscando a vida, como a Naiara... Enfim, a história é tranquila, e surpreendente, retratando principalmente a construção do personagem principal através das épocas da vida do mesmo, vendo o que ele está se tornando, e ainda não acabou de se tornar. Num caminho onde o fim é a morte, e suas escolhas, como as cadeiras, não param de ser colocadas em sua frente.

O AUTOR

                Já havia conhecido Daniel há um ano, quando li o “Cordilheira” –aliás, livro que me fez querer muito visitar a Argentina, um dia irei – Então não foi como se não conhecesse o autor, ou o jeito dele de fazer as coisas. Eu já o admirava. Nascido em 1979, filho de gaúchos, o paulistano, galã, também é tradutor de literatura contemporânea inglesa, e um dos fundadores da editora “Livros do Mal”, por onde lançou seu primeiro livro: Dentes guardados (2001), e a primeira edição de Até o dia em que o cão morreu (2003), adaptado para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca como Cão sem dono (2007). Seu romance Mãos de Cavalo (2006) foi incluído na lista de leituras do vestibular da UFG por três anos consecutivos. Cordilheira(2008) recebeu o prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional, e foi terceiro lugar na categoria Romance do prêmio Jabuti. É autor também do álbum em quadrinhos Cachalote (2010), com o desenhista Rafael Coutinho. Seus livros e contos foram adaptados para cinema, teatro e histórias em quadrinhos. No exterior, os direitos de sua obra foram vendidos para países como Inglaterra, Estados Unidos, França, Itália, Argentina, Portugal, Romênia e Holanda.

sábado, 23 de março de 2013

Se eu fechar os olhos agora.


Se eu fechar os olhos agora

Se eu fechar os olhos agora, Edney Silvestre, Romance, 2009, Editora Record.

"Desde aquela época, venho buscando explicações para o sucesso do livro", conta Silvestre. "Afinal, não se trata de um relato histórico, nem policial, ou mesmo de um romance de formação, mas contém ingredientes de todos esses gêneros."















O LIVRO

“Nada neste país é o que parece.” –Forte, não?

                Já devo começar parabenizando o autor e o romance, visto que em 2010, ambos ganharam o prêmio jabuti de literatura na categoria romance. –Só escolho bons livros, né? Sem catarse, sem post. – E olha que engraçado, ele ganhou do nosso digníssimo “Leite Derramado, sim o do primeiro post!” Na verdade, concorriam naquela mesma categoria, e o Jornalista Edney Silvestre ganhou a melhor sobre o Chico. E não para por aí os prêmios dessa maravilhosa obra, em 2009, Se eu fechar os olhos agora, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura! Mas vamos ao que nos importa a sinopse comentada:
                Se eu fechar os olhos agora, começa com esta exata frase. O que me deixou de celho franzido, o título, a princípio, é tão sucinto e forte que me desorientou, confesso. E ele vai fazendo cada vez mais sentido, ao decorrer da estória, sobretudo, ao final dela. A primeira cena do livro, acontecida em um abril, no início da tortuosa década de sessenta, é estrelada por dois garotos de doze anos que fugiam da escola e... Um corpo. Encontram um corpo. Uma linda mulher, loira, cruelmente assassinada próximo ao lado onde os garotos se banhavam divertindo-se e discutindo sobre a ida do homem à Lua e coisas que estavam em voga na época – Nisso, o livro também está de parabéns. Não sei se pelo autor ser um jornalista, mas o conteúdo histórico que fica o tempo todo como pano de fundo é magnífico – Os dois garotos, que a princípio são suspeitos, por terem encontrado o corpo primeiro, sofrendo até sérias ameaças da polícia, veem outro homem ser dito culpado. O marido da moça, um dentista. Sob o argumento de ter agido por ciúme. Tudo isso se afigura estranho e demasiado repentino. Os rapazes decidem investigar, e sem qualquer planejamento prévio, acabam juntando-se a um velho de um asilo, velho este que tem um passado surpreendente que envolve a ditadura militar, Getúlio Vargas.
                Os diálogos e os pensamentos, o próprio modo simples de a história ir seguindo são um show de talento e leveza. Sim, há bastante leveza nas descrições. Nas lembranças, e na amizade cúmplice dos garotos, que são tão diferentes entre si. Os diálogos são simples ao ponto de nos deixar dar a ênfase, mas não fugindo do que o autor quer que pensemos. A crítica social; as mazelas políticas; a forma como o poder age; e a sujeira imunda que se esconde debaixo dos tapetes e é esquecida nos dá um sabor de realidade brasileira que não desce bem pela boca. Mas nos choca de modo que não há jeito de admirar pouco, a obra. Ama-se na mesma forma que se odeia a hipocrisia do povo, as mentiras, falsas acusações, perversões sexuais e a impunidade, o racismo e as ameaças, jogos de poder que havia – e há, diga-se de passagem – nas cidades brasileiras, que fique claro, não só no interior. Não só na década de sessenta.
                É uma grande discrepância que há, dentre a brutalidade dos fatos, a perspicácia das conclusões que existem na investigação, e a inocência do crescimento dos meninos. O autor transita por esses mundos tão comumente quanto um jornalista fala sobre festa de natal e logo depois sobre soterramento. A precisão do período histórico nos mostra a meticulosidade investigativa que houve previamente, antes do romance ser escrito, - seis anos, para a conclusão da obra-... E fica difícil, saber se neste volume é a arte quem imita a vida, ou se é a vida quem está imitando a arte. É tão real que, que pode haver por aí mais Ritas, mais Eduardos e Paulos. Mais Ubiratans. E há. O sabemos no profundo de nós... Moças assassinadas e ninguém se importando, vítimas e ao mesmo modo, vilões da política, mártires e garotos curiosos. Ao final das trezentas e quatro páginas, dentre idas e vindas do tempo, o desfecho é tão tristemente real quanto todo o romance em si.
Um livro emocionante, que merece estar aqui com a minha singela recomendação! Digo até que pretendo ler outros livros do autor, assim que a biblioteca da escola os disponibilizar.  

O AUTOR



                Fui sincera na outra postagem como o serei nesta. Eu não conheço bem o trabalho do autor, que além de escritor, ótimo romancista, é também um jornalista reconhecido e admirado. Edney Silvestre Entre suas coberturas marcantes estão os atentados às torres do World Trade Center, quando foi o primeiro jornalista brasileiro a chegar ao local dos ataques; uma série de reportagens no Iraque; a passagem de furacões na Flórida e na América Central.  Está baseado no Rio, onde faz reportagens para o Jornal Nacional, o Bom Dia Brasil e o Jornal da Globo. Tem uma coluna semanal no RJTV e apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na Globonews. Publicou os livros Dias de cachorro louco e Outros tempos, ambos de crônicas, pela Record, e Contestadores, pela Francis. Está incluído nas coletâneas Conversations with John Updike (University Press of Mississipi); As grandes entrevistas de O Globo, Milênio e O livro das grandes reportagens (Globo). Se eu fechar os olhos agora terá edições francesa e portuguesa, respectivamente pelas editoras Belfond e Planeta. Então, vê-se que não estamos lidando com pouca coisa por aqui, eis mais um gigante que temos o prazer de receber em nossa casa, e ler, página por página.

“Sempre achei que escritores mentiam quando diziam que não tinham controle sobre seus personagens. ‘Não é possível!’, eu pensava, mas é assim mesmo, porque eu descobri que não se tem realmente controle”. –Edney Silvestre... Pois é.

Fontes:. G1.globo.com
Record.com
Vermelho.org.com

Google imagens.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Leite Derramado



Leite Derramado, Chico Buarque.
2009, Schwarcz L.T.D.A, Companhia das letras, Leite Derramado, Chico Buarque.

                “...Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é que certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.” – Forte, não?











O LIVRO
“Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.” Leyla Perrone-Moisés, site do autor.
                Bom, começo afirmando que não haveria no mundo – mesmo que se caçasse em todas as galáxias superiores e outros lugares igualmente inusitados – um título tão propício à trama quanto: “Leite Derramado”, pela película meio invisível, do personagem com a própria vida. A estória se passa com um homem de classe elevada, de antiga linhagem, que sofre uma decadência de seu nome e estima conforme as décadas escorrem por seu monólogo. Um homem de idade avançada, que passa por uma doença num hospital. Falando para todos. E para ninguém. E para si mesmo, ao que nos parece. Ele não tem tento na língua, comenta ao mesmo tempo sobre histórias antigas da própria vida, como da televisão que o está atormentando pelo volume exacerbado, ou como é maltratado no recinto hospitalar. Memórias falhas, bonitas ou feias, tristes ou alegres, conta com a mesma entonação desvairadamente sincera e que nos toca – O personagem é absolutamente real, palpável – Embora muitas vezes veja-se que ele devaneia. Põe-se a ver mortos, descrever histórias como se lá estivesse, séculos atrás, e falar de sua linhagem, se perdendo dentre as próprias conclusões. E mais dias, e mais enfermeiras vêm e vão, e exames, histórias novas ou repetidas, sempre com aquele quê de naturalidade. Muitas peculiaridades nos conquistam no decorrer das duzentas páginas, como a visita da filha às vezes, que sempre nos é uma surpresa, pois raramente ele diz com quem está falando, podendo até confundir-se. Normalmente penso que é ignorado.
Um espetáculo totalmente a parte, é a presença de Matilde, sua ex-mulher, em quase todos os capítulos – nem que seja numa frase -. Passamos a também gostar dela, e ir tecendo na mente a história que se desenrolou ao ponto em que está: os dois separados, mesmo com tanta vontade partindo dele e emanando por seu discurso, talvez ele mesmo nem percebendo a profundidade que está contida nisso. Ao fim do livro, todos sabemos de cor e salteado como o Lalinho conheceu a moça, sua descrição de corpo, e seus gostos muitas vezes espalhafatosos e pueris, que veio a se tornar o núcleo principal de sua vida e pensamentos.
           Além de uma crítica social ali desmistificada de várias formas, através do próprio personagem principal, ou os que o rodeiam, também há muita história, muito conteúdo histórico brasileiro. As entrelinhas também compõem a obra de forma singular, descobrimos do próprio Eulálio coisas que ele não nos diz de boa vontade, ou até, não sabe. Não parou para pensar. Nos deixa descobrir, mas não nos diz claramente. Há humor, também, e um final sem fim. Um livro muito mais do que recomendável para primeiro post!

O AUTOR


"Vez por outra Deus força a mão e cria um talento único.
Quando a este talento se unem a inteligência e a sensibilidade, mesclando o artista ao intelectual, a coragem ao humor e a cultura aos olhos verdes, 'aí, então, é preciso terr cuidado,' como diria Vinícius, porque o efeito é quase insuportável. Por isso é que já tem criança dizendo: 'Mamãe, quando eu crescer, quero ser Chico Buarque'."
Jô Soares, humorista, setembro de 1998.”
               






                 





                 Devo admitir que essa é a primeira obra que tenho conhecimento deste maravilhoso autor nacional, mas foi como Jorge Amado, a gente lê e tem certeza de que quer aquilo pra alma! Foi uma indicação de uma professora, obviamente – ou não – uma professora de português, que dizia ser impossível não amar o Chico, pois bem, vos digo a frase dela com a mesma entonação, e também não estamos aqui de brincadeira, não é? Só indico bons livros. E bons autores, grandes artistas do mundo das palavras.
                Chico não é só autor de livros, é dramaturgo e músico, e mil e uma outras coisas que a arte que lhe vive perto permite que seja. Como autor, teve uma série de elogios por parte da crítica em torno de toda a sua obra literária, com as publicações: Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009). Como músico, Fez parceria com compositores e interpretes de grande destaque, entre eles, Vinícius de Morais, Tom Jobim, Toquinho, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo e Francis Hime.
      Francisco Buarque de Holanda, nasceu no Rio de janeiro, é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. E é um gigante da cultura brasileira que todos deveriam conhecer em algum momento da vida.